segunda-feira, 15 de setembro de 2008

sobre a cultura rio-grandense em semana farroupilha ou "nenhum gaúcho existe"

Li intressante artigo sobre o tema e, mesmo sendo o autor um ilustre [xará] desconhecido para mim, publico suas letras, como forma de reflexão sobre a identidade cultural na atualidade, aqui no sul longínquo:
Nenhum gaúcho existe, por Marcelo Rocha *


Se Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Hino Nacional, já questionava a existência do Brasil e dos brasileiros, talvez não fosse tão absurdo que nós, gaúchos, às vésperas de mais uma Semana Farroupilha, refletíssemos a respeito da construção simbólica de nossa identidade. A figura do gaúcho, metonímia do Rio Grande do Sul, é fixada pela literatura romântica regionalista no século 19 e passa, desde então, a subsumir as demais histórias de formação do Estado, em função do sonho, às vezes obsessivo, por uma mítica República Rio-Grandense. A narração constrói um tipo humano em seu meio ideal e o gaúcho de origem errante, contrabandista de gado e sem território transforma-se em herói coletivo sempre disposto a empunhar a bandeira da liberdade em conflitos para preservação da autonomia territorial.A despeito dessa bandeira, é justamente na época da ditadura militar que a Semana Farroupilha adquiriu um caráter oficial. Em lei de dezembro de 1964, determinou-se que esse festejo fosse organizado a partir da articulação entre instituições públicas e civis. Dez anos depois, ainda na época do regime militar, foi criado o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), reforçando os laços entre o poder oficial e a simbologia regional. Assim e durante algumas décadas ainda, as forças da repressão e os ícones da representação dividiram, solidariamente, o mesmo mate amargo.Com efeito, toda construção tem suas sobras. Assim, o projeto de definição do gaúcho vem acompanhado mais de exclusões do que inclusões. Dessa forma, se não somos brasileiros – como o discurso mais fundamentalista salienta – nem platinos, como muitos gostariam, habitamos um entrelugar ou um espaço em que nossas raízes viraram rotas, repetindo o jogo de palavras de Stuart Hall. Habitamos, por fim, um lugar que não existe.A parte disso, não podemos esquecer de que o pala do gaúcho também é tecido por diversos retalhos. Nossos primeiros habitantes foram os indígenas cuja história mostra as representações das Missões Jesuíticas e as lutas dos guaranis pela manutenção do território. Além deles, os negros foram fundamentais para a nossa cultura e economia, seja na presença das religiões afro-brasileiras ou de narrativas ficcionais, incorporadas ao nosso folclore, seja no trabalho com o gado nas charqueadas, na época da escravidão. De igual modo, as colonizações alemã e italiana foram sobejamente importantes na formação de nosso Estado, sobretudo no desenvolvimento da agricultura, com a diversidade produtiva e no trabalho com o couro. Isso sem falar em projetos individuais ou coletivos de colonização com espanhóis, russos, poloneses, entre outros, que ajudaram a compor esse mosaico multiétnico do qual fazemos parte.Portanto, em função dessa multiplicidade de rostos e definições torna-se impossível estabelecer de maneira absoluta o que seja o Rio Grande do Sul ou os gaúchos. O resultado será sempre parcial, ideológico e lacunar. Por outro lado, o reconhecimento dessa pluralidade étnica e cultural que nos compõe talvez seja o caminho mais justo para escolhermos uma imagem menos autoritária e ortodoxa que nos represente.
* Professor da Unipampa de São Borja

terça-feira, 2 de setembro de 2008

a zona sul do estado e a não pós-modernidade

em primeiro lugar cumpre definir que entendo a zona sul do estado do rio grande do sul como toda área com geografia pampeana, que tenha tido no século 18, 19, principalmente e 20 sua economia baseada na produção agrícola ou pecuária, com grandes extensões de terra de poucos donos, os latifúndios.
pois estando eu há 24h por paragens como a citada, consegui fazer uma rápida leitura. não há traços de pós-modernidade. ou modernidade reflexiva. ou como queira, escolha seu autor ou crie sua alcunha.
um, apenas, inegável, importante, mas mesmo assim, dentro de sua singularidade.
a internet. em wi-fi, no hotel; em lan-houses; à cabo, mas irrestrita e rápida na sede da oab.
Só.
Nada mais vejo, de tudo q se lê e se ouve sobre a contemporaneidade.
O trânsito é pouco e sem regras. muito diferente das imagens de metrópoles ou megalópoles multi cortada [ou mutilada?] por vias de diferentes naturezas - ruas, avenidas, perimetriais ou highways, com muitas sinaleiras, sinalizações, caminhões, ônibus, e análogos - contâiners móveis que entopem nossas ruas - o transporte público é necessário, bem sei e muito utilizei, mas se fosse por baixo da terra seria infinatamente melhor - sem questões simbólicas de esconderijo. Culpa do excesso de carros, tb. com certeza, mas aí a discussão aponta pra fatores econômicos de alta nas linhas e crédito e culturais do sonho do carro próprio [e cada vez maior e mais potente e mais aflito por gasolina]. não é a idéia.
convivem aqui, com carros, motos e alguns ônibus, carros de boi, cavalos e cavalarianos e carroças [tudo bem, porto alegre tb tem, mas em proporção, bem menor].
pessoas tomam mate. muto. e o fazem nas varandas de suas casas. de madeira ou de alvenaria, em ruas de chão ou paralelepípedo. maioria de portas [de grades ou telas] abertas. carros são abandonados por alguns minutos, nalgum lugar, ligados e abertos. os donos dos comércios [setor que mais aparece, numa vista rápida como a que pude ter] raramente estão atras do balcão. estão ao redor do estabelecimento, conversando com fregueses.
muitos jovens, que tem tempo para tudo. muitos idosos, que tem muito tempo para pouca [ou alguma] coisa e pouco tempo para olhares outros. enfim, o tempo, tão discutido, o qual temos, no singelo limite da linguagem, a forma para nos referirmos a ele, é diferente aqui. como dali, ou de acolá. mas imagino ser um tempo análogo, em comunidades como esta, desse recanto do mapa, desse sul desse estado.
onde cinemas eu não avistei. onde bibliotecas eu não localizei, menos que isso, pois mais que o jornal, eu não vi na mão de nenhum habitante. antes o crochê. e/ou o mate. onde a música é única, a dita "gaudéria", com pequenas variações. nem o celular está tão presente.
enfim, a crise que afetou o setor agrícola/pecuário, no séc 19, a grande concentração de terras em poucas mãos, a não-modernização dos meios de pecuária, a dificuldade de se alterar a cultura da terra e passar a plantar [desconheço as questões de eng. agrônoma na região] são fatores que levaram a fuga dos jovens para locais com ensino superior e a completa estagnação econômica-social e cultural dessa região, que chamamos de pampa e do qual tanto nos orgulhamos.

e o crime ? compensa ? ou como diria edy rock: grana suja, como vem, vai
















o movimento brasil contra a violência e a entusiástica participação da oab

a ordem dos advogados do brasil, através de seus meios de comunicação [o e-mail diário é bom, ressalto] vem demonstrando grande entusiasmo político com as questões desse novo movimento contra a violência, ao qual vem encabeçando, junto com a conf. nacional dos bispos, ass. juízes federais e ministério da justiça.
a um, que não está causando efeito nenhum na grande mídia, logo gerando pouca repercussão, não atingindo a maioria da população. sendo um movimento classista, de quantidade de divulgação restrita, que não trouxe no discurso externo nada de concreto, tendo ao que parece uma forma de aliança estreita com uma determinada religião, apesar da aparência de causa social que elevaria à melhor condição geral, sem nenhuma idéia ideológica no entre-posto, não acho bom. e, no meu entender, é mais um fadado ao insucesso.
e dois que prefiro ver a oab focando forças na defesa de seus membros, brigando pelo acesso aos inquéritos, buscando contribuir na criação legislativa - que em muito pouco auxilia a prática profissional e seguir na efetivação do quinto constitucional

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Em nome de Quem ?

Estranho. Estranho, mesmo.
Estava eu num casamento - festa; sem igreja ou qualquer vínculo religioso.
Não conhecia ninguém, afora minha namorada [amiga da noiva]; uma amiga minha de PUC, madrinha do casório; e, de vista, mais duas ou três amigas da minha namorada, com as quais não possuo um pingo de intimidade. Quando muito sei o nome.
Bom. A questão é que, no decorrer da celebração - sim, houve uma celebração, apesar de não religiosa: consistia num cidadão de microfone em punho, olhando para a noiva, falando obviedades piegas; que ensaiou uma ritualística simbólica entre os quatro elementos da natureza fazendo com que os noivos plantassem árvore et coetera. Uma chatice.
Como eu disse, não conhecia ninguém, logo a emoção que, por ventura, viesse a tomar conta do lugar não me atingiria, pois não vivi nenhum dia sequer dos 11 [onze !] anos de união daquele casal. Casando justamente no dia que completavam o comemorar dessa data.
Então, qualquer coisa me distraía naquela longa meia hora - inclusive, para minha desagradável surpresa, percebi que não haviam garçons circulando. Todas as pessoas da festa estavam sem beber nada desde o início da coisa, que estendia-se, àquela hora, há mais de hora. Logo eu, um convidado [não, eu não estava "furando" a festa] totalmente alheio ao desenrolar daquela cena estava de copo vazio. E ávido por um copo de cerveja. Nem a bebida podia me alentar, por simplesmente inexistir naquele ambiente.
Voltando às distrações, afora ligeiros comentários com a Ana Luísa, o vaso de flores dos enfeites - onde as flores não tinham caule mas o vasos tinham água [seriam flores de plástico, aquelas que não morrem?]; a quantidade proliferada de padrinhos e os vestimentos dos convivas eram maneiras de desfocar minha atenção.
Foi quando o cerimonialista deu por encerrada sua parte - que, tenho certeza, foi mais enrolada que o devido, talvez buscando justificar seus honorários, mas entediando parte da audiência, que já sentara e murmurava -, que veio o fato que chamou-me atenção.
Não era a conversa, iniciando-se de fato; nem a fileira de garçons portando garrafas gélidas de Polar e gigantescas pet de refrigerente apontando da saída da copa; mas sim duas figuras discretas, porém relevantes.
Um homem e uma mulher, em pleno sábado à noite, em total atividade laboral. Eram funcionários de um registro civil oficializando a união.
Vi que a poucos interessava esse movimento legalista dentro de uma festa - ainda bem que àquela momento, o som do créu ainda não ecoava das caixas de som - mas a mim, interessou.
Principalmente quando o registrador [juiz de paz ?] citou o artigo mil e alguma coisa do código civil, e disse:
"[...] em nome da lei, eu vos declaro marido e mulher."

Pus-me a pensar: em nome da lei... em nome da lei...

Como alguém [ser vivo, humano] pode falar em nome da lei. Se fosse de acordo com a lei. Como determinado em lei. Mas falar "em nome da", é uma coisa que me gerou intriga.
Fui conferir na citada lei, o código civil e lá está textualmente escrito. Logo, para cumprir seu papel o homem do cartório deveria citar daquele modo...

Quem sou eu para discutir com os civilistas...